quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Minha amiga

Dizia palavras bonitas
sobre flôres, estrelas cadentes, o gosto e o cheiro da terra molhada.
Tão animado falava sobre o que é todo e que não existe parte.
Cantou afinado e desafinado
Era todo Deus; gozo e frigidez

Ela que permaneceu calada sorriu.
E disse
"Dá até vontade de dizer que te amo"

Ele se calou
era terno ser e estar n´aquilo sobre o que não se fala.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Nossa Senhora de Lourdes


Brincavamos de pega, de polícia e ladrão, de pega-macaco
Eu levava meu radinho, escutavamos musica sob ou sobre a goiabeira
Pegavamos insetos num pequeno jardim e os guardavamos numa garrafa só pra soltar depois
E aquela arvore encostada na parede do patio?
Lembro-me de tê-la subido e pulei o muro
Tia Zélia não gostou nem um pouco
Mas foi uma aventura e tanto!

Tia Carmelita
Tia Suely
Tia Rosângela
Tia Zelia
...

Eu sempre copiando as tarefas até depois do final das aulas
Elas estavam lá, sempre pacientes
As vezes seguravam minha mão

Não sei bem do que vocês brincam hoje
Provavelmente não escutam Raul Seixas como eu e o Rodrigo faziamos no meu pequeno gradiente
Não sei os nomes de suas Tias nem os de seus coleguinhas, mas espero que sejam todos ótimos como foram os meus


Eu passava por aí até mesmo durante as férias
E tia Zélia me deixava tomar banho de piscina!

-Rafael, Rodrigo, Carminha, Adson! vamos!-

E ficavamos lá por horas


Mas eu cresci


Meus amiguinhos cresceram

E gente grande inventa cada caminho pra seguir que nem te conto

Acho que algumas Tias se aposentaram

E as salas foram ficando pequenas
As cadeiras pequenas
Os banheiros pequenos
O patio...
...quando fechei os olhos ficou enorme denovo
E eu podia ouvir os mesmos gritos da hora do recreio

E eu chorei

Mas sorri também

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Branco

Talvez fosse melhor se separar
Talvez fosse melhor pedir demissão
Talvez fosse a hora de fazer aquela viagem
Talvez fosse a hora de terminar aquele livro
Talvez fosse a hora de contar todas as verdades
Talvez fosse o dia de trepar com a tal vizinha
Talvez fosse uma boa tarde para mergulhar nu no mar
Talvez fosse a hora de gritar

Mas ele não fez nada disso

Aproveitou a hora do almoço para caminhar
Continuou de paletó, mas acanhadamente tirou os sapatos e as meias
Caminhou até chegar em casa
Era uma casa bonita, bem parecida com aquelas desenhadas pelas crianças no jardim da infância

Não havia ninguém

Sentou-se na sala, próximo à mesa de centro
Da pasta tirou papel e caneta
Escreveu dois bilhetes, levantou-se e foi até a cozinha com os papeis na mão direita
Colocou-os sob imãs na geladeira.

Uma banana e um anuncio de uma distribuidora de água mineral

Foi até o quarto. Um bom tempo parado diante da porta
Respirou tão fundo que as lágrimas quase transbordaram

Entrou e saiu com um abajour
Logo com travesseiros e lençois e todas as coisas miúdas
Voltou, fez muito barulho e saiu com pedaços de madeira
Cama, criado mudo, guarda roupas

Aquilo havia deixado de ser um quarto
Era agora um cômodo vazio
Branco

Há muito havia passado a hora de voltar para o trabalho

Ele foi até a cozinha, bebeu um copo d´água, despiu-se
Pegou algumas toalhas brancas, uma cadeira e voltou para o cômodo vazio
Colocou a cadeira bem no centro e com as toalhas fez um circulo ao redor

trancou o cômodo vazio e com dificuldade engoliu a chave
Sentou-se na cadeira e simplesmente respirou
O sangue corria pelas suas veias
Cresciam os pêlos todos do corpo
Seus olhos viam, e escurecia quando piscava
Havia saliva em sua boca
Cresciam também suas unhas
Seus ouvidos ouviam todo o silêncio
Tudo numa lentidão infinita

Tirou sua própria vida
Percebendo antes disso que era a unica que realmente possuia

E tudo ficou mais Branco
A bola vermelha que se formou no chão parecia pipocar no meio do nada
Mas ficou tão Branco que até mesmo ela se perdeu
Tudo tão Branco, mas tão Branco que acabou